Antes que o snif caia sobre as nossas cabeças

Dedicado a Rubem Jablonka , Gladis Berezowsky e Judith Scliar (minha eterna madrichá)

Na minha época, abandonava-se a tnuá quando não se fazia Aliá. Pensava na época: “jovem para o mundo e velho para a tnuá”. Passei pela Felipe 487 louco para entrar mas, era a vez de outras shichavot. “DOR OLHECH VE DOR BA”. Meu filho, Marco, fez Machon como eu, mas pela Chazit. Até hoje é convidado ou participa de eventos da Chazit. Nosso movimento é ou era mais ideológico, diferente. Cada shichvá teve seus nomes e sua história . Ninguém tem direito de se “adonar”, foram experiências únicas. Lembro de nomes como: o sheliach Ariê  Golwasser, Taís Guershman (até hoje no kibutz), Abrão Slavutzky (ainda engajado nas ideias da tnuá). O sheliach Buka e Avram Goldstajan, Abrão Turkenitz (o “Turka”, meu madrich), o Ua, e toda a família Oliven (Judith, hoje Scliar, minha querida madricha, Rubem, e o saudoso Daniel), Miguel, depois shomer. Tive também como madrich o Abrão Luiz Jablonka (irmão do Rubem) que quando saiu da tnuá (por causa do seminário da Lapa) foi em minha casa explicar, foi honesto, verdadeiro, chorei. Aliás, na época os madrichim visitavam os chanichim. O grande nome que não podemos esquecer da época foi o Rubem Girdael JABLONKA, que me levou para a tnuá e é o grande nome, se é para citar nomes.

O Suli Kuperstein, a Rosane Turkenitz, Sulinho (em Israel), Gilberto Hausman (o Gil foi “baita” chaver tnuá). O Solon Pridkladnizki, o Paulo Burd (que criou na época o iton e brigava com o velho mimeógrafo a tinta), o José Sergio Wolf (grande amigo).

A propriedade de snif Porto Alegre pertence ou pertencia ao Uruguai. Era um sobrado velho com dois andares mas não de madeira, como dizem. A tnuá em Porto Alegre surgiu na inspiração da tnuá no Uruguai talvez isso explique a propriedade na Felipe. Foi a pioneira no Brasil.

Quando entrei era Ichud Habonim, mas tinha sido Dror, Dror Gordônia e Ichud Hanoar ha Chalutzi. Mas o nome Dror era forte, como é até hoje. Minha mãe já dizia: “já vai te enfiar no Dror com suas calças brim coringa?”

Lembro do sheliach Shmuel Kaplan, um argentino de Bror Chail, um grande cara. Nós bogrim convivíamos muito com os shlichim, frequentávamos suas casas. Na verdade eles eram jovens como nós.

O Jablonka era um político nato. Tinha passagem em todas as organizações judaicas e chegou inclusive a participar do Congresso Sionista Mundial pelo Rio Grande do Sul antes de fazer Aliá.

O prédio do snif por volta dos anos 60-70 estava em estado calamitoso, quase caindo nas nossas cabeças, como diziam. Formou-se então uma Vaad Hanoar com o objetivo de construir uma nova sede. Mudamos para a Francisco Ferrer na sede da Unificada. Foi complicado e difícil conviver com a diretoria da OSU mas sobrevivemos. Lembro claramente que nessa época ou pouco depois o Luis David Leventhal entra como funcionário da unificada.

Aliás o Luiz David e a Liane foram importantes, foram à minha casa depois de casados para uma bela conversa. “Kol Hakavod”, Luiz David. Quem saía da tnuá e não fazia Aliá era execrado ou era nós mesmos nos culpávamos por isso?

A Vaad Hanoar se reunia e assim nossos pais e outros militantes arrecadavam o kessef.  Participavam meus pais Benjamim e Berta Meimes. Na época era muito difícil apoiar um movimento que iria separá-lo do filho e mandá-lo para um kibutz longínquo.  Mas, afinal o snif poderia cair nas nossas cabeças. Meu pai era o guisbar, contator por formação se orgulhava de sua letra gótica nas atas e livros caixa. Lembro da minha mãe, excelente vendedora saindo da sua loja “A Nomalista”, na Barros Cassal, para trabalhar numa quermesse no Centro Israelita vendendo com garra para conseguir o dinheiro para a nova sede.

Milha família era de classe média, como comerciantes, dinheiro não era problema. Vivíamos muito bem. A tnuá pregava a união do proletariado para a revolução socialista. Isso era utopia para mim, classe média, e os pais querendo um filho doutor. Quando fiz vestibular pensei em agronomia, quem sabe num longínquo Kibutz no Pampa Gaúcho. A ideia na época era de que deveríamos criar uma base de agricultores em Israel e deveríamos buscar cursos profissionalizantes.

Participaram na Vaad Hanoar o casal Procianoy (pais do Jairo da Tali e do Marcelo). O Dr. Procianboy, médico do Pronto Socorro, com seu cachimbo e sua sisudez. Sei que tem residência dupla ente “eretz” e POA. O casal Tukenitz (pais da Rosane do Rubem e do Neco), o Efraim da Farmácia muito ajudou, gosto dele. Os Niremberg, que fizeram Aliá na época.

Lembro de um grande nome da Vaad Hanoar , Dr. Samuel Spritzer, um sionista trabalhista. Esse sim um grande batalhador.

Ficávamos comovidos ao vermos nossos pais com aquela “gana tnuatí”, buscando uma sede para abrigar os ideais e as cabeças de seus filhos.

Em 1969 o Buka, sheliach na época, convidou-me para ir ao Machon Le Madrichei Chutz Laaretz. Ser escolhido para o Machon na época era Kavod. Fui só, minha Kvutza fez shnat em 1971. Quando voltei, o snif estava tava pronto, bonito.  E eu, por razoes familiares e pessoais não era mais da tnuá. Tentei, mas DOR OLECHE VE DOR BA uma nova geração aparecia. Na época ficávamos velhos aos 25 anos. Na minha cabeça nunca saí da tnuá, só não frequentava o snif.

Notem que escrevo no coletivo, “nós”, “fizemos”… isso é tnuatí.

O caminho era a universidade, a “vida real”.

Participou do movimento o Celso Loureiro Chaves, que era bem tnuatí, mas o impediram de ir ao shnat. A Guita Fainglus, a Rosane Carvalho, a Beti Stifelman (nossa musa), a Marion (muito querida), os Melon.

Ninguém tem direito de se “adonar “. Na tnuá existem princípios: o sionismo, o socialismo  (ou trabalhismo) ,o kibutz e o judaísmo.  Não entendo esse conflito de vaidades. Quem é o dono disso ou daquilo. Assim como não conheço nada da Casa Borochov.  Sei que o Snif  se chama Ber Borochov na Felipe Camarão 487.

O Maurinho (lembro do Nei todos os anos querendo entrar na tnuá mas não tinha idade) sempre foi ótimo, batalhou pela tnuá e respeitava os bogrim vatikim . O Luiz David é outro valoroso até porque teve um opala diplomata quatro portas como eu.

Nossa aliança política era com as PIONEIRAS (ligadas ao Mapai como nós), elas ajudaram muito inclusive tinham uma sala no snif ao lado da maskirut , parece que na época pagavam o IPTU ou algo mais, aquela sala era um mistério. Como tinha sido um acordo da VH e dos shlichim , não contestávamos.

A Hashomer Hatzair ficava numa casa alugada na Felipe Camarão perto da Bento Figueredo, em frente ao Armazém Internacional, hoje Kronks. Eram nosso “rivais”. Eles eram de extrema esquerda, dizíamos fanáticos, militarizados, dogmáticos, mas era bom quando as suas bachurot nos visitavam .

O homem forte da Shomer era o Jaques Wainberg, belas discussões ideológicas e comportamentais tivemos. Usar gravata era símbolo burguês, dançar sem ser “hoira” era coisa de burguês.  Em alguns momentos era até bom ser burguês pois o Ichud Habonim baseava-se na liberdade e podíamos ir também nas reuniões dançantes da época.Ser burguês não era tão ruim afinal. O Talema, grande figura da Shomer.

O Tilboshet, a venda do vinho de Pessach, tudo nos motivava. No Iom Kipur, algumas pessoas esvaziavam os bolsos na véspera e lá estávamos nós angariando kessef para o snif ou para custear chaverim que não podiam pagar a machané.

Ter a chave do snif era uma grande kavod. As vezes passo pelo snif e olho, se tem alguém é porque tem a chave.

‎Morava, como hoje, na Barros Cassal, mas vivia na Felipe Camarão 487.

Outra coisa. A quadra do Snif novo era para ser coberta. Os vizinhos não consentiram por alguma razão. Deve ter até hoje os ferros da cobertura doada por um tio meu.

Alfredo Silberman sempre participava e vibrava.

Houve um racha da minha Kvutza com a Vaad hanoar. Não sei bem o porquê resolvemos viajar para Minas Gerais. O argumento era de que fizemos um trabalho bom no ano e merecíamos a viagem. Nada tnuatí , não é? Mas fomos. Lembro que no dia que o homem chegou à Lua estávamos num ônibus cruzando Minas Gerais. Acho até que era um pouco de inveja mútua entre a Vaad e nós. O fato é que a tnuá e os debates eram prazerosos para nós e nossos pais. Mas éramos jovens na época.

Era difícil ter vida privada estando na Tnua, mas sei que cada um de nós guardava um tempo ou um espaço para si.

Na época nos ridicularizavam (hoje “bullying”), nos chamavam de fanáticos. Mas não se dava muita bola. Tinham as machanot centrais (conheci bem o Brasil pela Tnuá), os tiulim , as haflagot  (que não eram em barco). Era muito bom ser madrich nas machanot locais, pois depois de um dia de trabalho o lazer era ótimo entre os madrichim. Outra coisa boa era buscar locais de machané. Fiz  belas viagens. Interessante que quando se falava em tnua se dizia trabalho: eu trabalho para (ou na) tnuá. Se dizia trabalho, não participação.

O local mais certo era a Associação Cristã de Moços, em Canela, rústico, mas muito bom. Depois descobrimos um retiro de evangélicos em Santa Catarina muito bom. Belos camarões comemos na tenda da Lurdinha na praia.

Era nosso ofício buscar as chaverot em casa para o shabat, na sexta. Algumas eram longe, outras tínhamos que trazer ela e a gaita (acordeom). Íamos de Bonde. As vezes fazíamos um sorteio de quem ia buscar a gaita.

Namoro era pouco comum entre nós talvez por causa da conivência fraternal. Relevávamos para mas machanot centrais. Fui num Seminário Lepeilim da América Latina na Argentina. Aos meus 16 -17 anos, foi uma aventura e tanto.

Hoje que sou pai e avô penso que a responsabilidade que nos concediam com os chanichim era demasiada. Claro que corríamos riscos. Descer o Itaimbezinho com chuva, viagens, tiulim.

Mas se o sheliach e o Jablonka fossem, os pais concediam.

Uma vez expulsamos uns cinco chaverim da machané na ACM, acho que foi por roubo de comida ou algo assim. Hoje penso na coragem que tivemos, pelo menos eu acompanhei os chaverim até Porto Alegre.

Histórias e estórias não faltam, quem sabe me inspiro em “Mil Histórias Sem Fim”, de Malba Tahan, e continuo contando-as sem fim.

O Dror atual deve ter dilemas, li que o Cheder Haochel de Bror Chail foi privatizado. A comunidade judaica se aburguesou, tem Seder de Pessach no Plaza e festas nababescas com escola de samba e times de futebol nos Bar e Bat mitzvas(ot) Com a queda do muro de Berlim, o fim da União Soviética, o socialismo, enfim…

Como levar uma tnuá sem as suas bases ideológicas? Fica a pergunta.

Mas pelo menos o snif não caiu sobre as nossas cabeças.

Fontes:

-Usei livremente o humor co tom crítico e debochado de “que o céu caia sobre minha cabeça” de Albert Uderzo e René Goscinny em Asterix.

– Pássaros da Liberdade: jovens, judeus e revolucionário do Brasil de CARLA BASSANEZI PINSKY .Contexto

-Fragmentos de memória Avraham Milgram (org) Editora: IMAGO

-Mil Histórias Sem Fim, de Malba Tahan,  Editor – Getulio M. Costa

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