Assim começou nossa história…

Por: Susana Lowi 08/09/2020
Peter e Susana Lowy
Peter e Susana Lowy

       Era no fim de uma tarde, nos inícios do ano 1950, em São Paulo, eu e o meu pai   estávamos voltando para casa após uma aula de hebraico no Bom Retiro. Subimos no   ônibus, nos sentamos, e atrás de nós sentou um rapaz loiro, bastante simpático (e bonitinho também).

       Quando o ônibus começou a rodar, o rapaz tocou no ombro do meu pai, e mostrando-lhe   uma foto na sua mão, perguntou: desculpe, por acaso este santinho que eu achei no chão pertence ao senhor? Meu pai secamente lhe respondeu: “Não, não é nosso! Nós somos judeus!  O loirinho sorriu e disse, mas que coincidência, eu também sou judeu! E imediatamente se apresentou, “meu nome é Markin Tuder, e eu sou membro do DROR, o maior movimento juvenil sionista socialista do Brasil. E quase sem respirar, nos contou com grande entusiasmo, quais eram os objetivos do movimento: recrutar e preparar a juventude judaica para fazer aliá para Israel, ajudar a construir o país dos judeus, trabalhar a terra, retornar à natureza e criar um novo mundo onde reinará Paz, Justiça, Igualdade e Solidariedade. Viveremos num kibutz, numa coletividade formada por pessoas crentes, idealistas, devotadas de corpo e alma ao seu ideal, cada um dando o máximo de si mesmo, e recebendo só de acordo com suas necessidades, desligados completamente das superficialidades materialistas.                   

            Meu pai ficou um pouco assustado com a eloquência do rapaz, e começou a perguntar sobre outros movimentos (ele admirava muito o Menachem Begin naquela época) mas como chegamos ao nosso destino a conversa terminou. Porém, Markin insistiu e pediu permissão para continuarmos a conversar e se convidou a vir nos visitar no próximo domingo.

       O resto é a nossa história. Eu aderi ao DROR, me adaptei rapidamente, fui madrichá de jovens maravilhosos como o Neno (Henrique Kuchnir), Arão Kremer, Bernardo (Dov) Zeltzer, Beti Löeb, Iva, David, Noé Milchtein e outros. Eu me senti feliz e realizada. Um belo dia fomos todos convocados para uma campanha para venda de vinho da Hachshará para a coletividade, e por acaso, o meu par (íamos sempre em dois, para facilitar) foi um chaver chamado Peter Löwy, e assim começou a história do nosso amor.

       Nós nos casamos em 1952. No ano seguinte, 1953, formamos o 5º. garin (grupo) e juntos fomos nos preparar para fazer aliá numa fazenda em Itupeva. Chegamos em Israel no dia 7 de julho de 1954, e fomos direto para o kibutz Bror Chail, onde já se encontravam quatro grupos de brasileiros do nosso movimento que vieram reforçar o grupo de jovens judeus egípcios que fundaram o kibutz em 1948.

       O kibutz era exatamente como Peter e eu imaginávamos. Nada nos surpreendeu, nem quando fomos gentilmente solicitados a entregar todos os nossos pertences (roupas, presentes de casamento, mantimentos, guloseimas etc.,) para a Comissão Social (Vaadat Chevrá), que depois repartiu tudo igualmente entre todos os chaverim do kibutz. Contudo, nos forneceram roupas de trabalho e outros acessórios que necessitaríamos dali em diante.

            Fizemos um “tour” pelo kibutz acompanhados de um chaver da Comissão de Absorção (Vaadat Klitá)! Nada era verde, não havia nenhuma árvore, nem flores… mas pensamos, afinal estamos na Porta do Neguev (Shaar Haneguev) e nós viemos transformar tudo isto!) Haviam várias barracas, algumas casinhas de madeira, um refeitório com bancos e mesas feitos na marcenaria do kibutz, o depósito de armas, os banheiros coletivos, as casas das crianças, os campos de agricultura, o pomar de laranjas e o vinhedo.

Depois nos alojaram nas moradias. Dois casais por barraca, e os solteiros de quatro em quatro, e no dia seguinte já estávamos escalados para trabalhar no campo.

       O difícil foi o calor, não havia ventilador (e claro, nem ar condicionado) mas para tudo havia solução. Voltávamos do trabalho, jogávamos um balde de água no chão e assim adormecíamos, felizes da vida e satisfeitos. De dia trabalhávamos, e a noite ao som da harmônica do Peter, dançávamos “Hora” no refeitório do kibutz.

       Peter e eu nos sentimos bem no kibutz, éramos ativos e tomávamos parte nas decisões e empreendimentos da comunidade. Peter tinha abandonado os estudos de química na universidade junto com dezenas de outros companheiros por decisão do movimento. Ele fez uma especialização em química industrial e foi o primeiro chaver a trabalhar fora do kibutz. Ele viajava todos os dias numa motocicleta para trabalhar em Beer Sheva.

       Anos depois, Peter foi um dos fundadores da DECO e da TAPUGAN, indústrias de alimentos desidratados. A primeira se encontrava no Kibutz e a segunda na Central dos kibutzim do Shaar Hanegev. Paralelamente a parte professional, Peter se empenhou muito ativamente na parte econômica e social do kibutz. Durante longos anos ele dirigiu as reuniões da assembleia geral do kibutz (Asseifá Clalit) nas quais eram tomadas as decisões básicas da nossa vida coletiva.

            Com o passar dos anos e o desenvolvimento do kibutz, deixamos de morar nas barracas e nas pequenas casas de madeira. Tínhamos casas construídas, até com banheiro privativo. Nossos bens materiais foram aumentando, e quando recebemos da Comissão de Consumo (Vaadat Tzrichá) geladeiras, uma resolução que gerou muita polêmica na Asseifá, houve chaverim que não concordaram e se recusaram a aceitar (eu lembro de dois companheiros que puseram na geladeira sapatos ou jornais velhos).

       Absorvíamos cada ano novos grupos de jovens do DROR, dezenas de famílias e jovens (na maioria brasileiros). Nos anos de 60′ e 70′ éramos o kibutz com o maior número de idosos (pais e familiares de chaverim). Procuramos novas fontes econômicas, apoiamos a ida de chaverim para estudar e assim muitos deles começaram a trabalhar fora do kibutz. Eu por exemplo, estudei Assistencia Social, o que me permitiu melhorar minha atividade social no kibutz e também trabalhei com sobreviventes do Holocausto na organização Amcha em Ashkelon, durante longos anos.

       Com o correr do tempo e o nascer dos filhos, dificuldades econômicas, abandonos de companheiros, começaram a surgir no kibutz ondas de descontentamento. Muitos pais não estavam satisfeitos que seus filhos dormiam nas casas de crianças (batei ieladim) e depois de muitas discussões sobre o assunto, tanto no nosso kibutz como no Movimento Kibutziano em geral, a nossa Asseifá resolveu por grande maioria a favor das crianças dormir na casa dos pais o que acarretou maiores dificuldades econômicas para o kibutz pois as casas das famílias tiveram que ser adaptadas de acordo com a resolução tomada.

      Nos meados dos anos 80′, houve uma grande crise econômica em Israel que naturalmente afetou também os kibutzim, principalmente do ponto de vista econômico e demográfico. Chaverim abandonavam o kibutz e a maioria dos filhos não quiseram voltar a viver nele depois de servir o exército. Em kibutzim como Beit Oren, apenas para citar um exemplo triste, só os chaverim idosos ficaram no kibutz.

       E agora, o que fazer? Como encontrar novos caminhos para mudar a estrutura do kibutz sem abdicar de suas bases ideológicas? Sem abdicar da ajuda mútua? Do cuidado dos doentes, idosos, dependentes e daqueles com menor remuneração de trabalho? Peter foi dos primeiros chaverim que sugeriu formar um fórum para estudar o problema, verificar alternativas, consultar outros kibutzim que também procuravam soluções para a crise, analisar todos os aspectos sociais, econômicos, demográficos e propor soluções possíveis. Em seguida organizamos todos os chaverim do kibutz em pequenos grupos, e a participação foi total. Foi um longo e árduo processo que gerou muitas discussões e discórdias.

            A decisão final do kibutz, tomada em novembro de 2000, para realizar a reforma, foi traumática para muitos dos nossos queridos e devotados companheiros. Eles NÃO viram nesta decisão uma tentativa de adaptação à realidade que incorria em resguardar valores básicos como ajuda mútua, econômica, espiritual, serviços comunitários, saúde, educação, etc., PORÉM uma traição e desmoronamento dos nossos sonhos de juventude.

Hoje, 20 anos após a realização da reforma, somos testemunhas que até os mais rígidos críticos, percebem que a solução adotada foi correta. A grande maioria dos nossos filhos voltaram para o kibutz, dezenas de famílias jovens foram aceitos como chaverim, cada chaver é responsável pela manutenção de sua família e todos contribuem para o Imposto Social, para a rede de segurança que garante o nosso princípio básico kibutziano.

       A história continua… vou agora visitar a minha bisnetinha, que mora ao meu lado aqui no kibutz e passear com ela pelos gramados verdes.

                                                                                                             Susana Löwy, Kibutz Bror Chail
                                                                                                            Setembro, 2020

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1 thought on “Assim começou nossa história…”

  1. Participei do Hashomer Hatzair em meados de 1957, que ficava em S. Paulo no Bom Retiro, quando tinha 10 anos de idade e posteriormente fui membro do Ichud Habonim. Participei de uma machanéh inesquecivel em meados de janeiro de1960 a 1962 (?) em Campos do Jordão-SP. Fomos para lá de trem de carga, que saiu da estação do Brás, fomos até Pindamonhangaba de trem, e depois de caminhão até o local da Machanéh em Campos do Jordão. Relembro ainda aspectos e imagens e histórias, e pessoas, inesquecíveis. Meu primo, Dov(Bernardo Winer), foi madrich desse acampamento, e minha irmã Chana Viner também parfticipou. Recentemente, e mesmo no final de 2019, e toda vez que vou a Campos do Jordão-SP, no caminho para o Horto Florestal entro na ponte e o local dessa machanéh, cujo Prédio-casa enorme ainda existe. Muito perto deste local fica o acampamento permanente da CIP-Congregação Israelita Paulista. E numa destas idas, no caminho do Horto Florestal, deparamos, na estrada perto da porta, com o falecido Rabino Sobel e seus Hanichim. num acampamento de Janeiro.

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