O QUEIJO

Por: Shmuel Yerushalmi 09/02/2018

Isto deve ter se passado em algum Outono ou Primavera (1952 ou 1953) no Rio de Janeiro; porquê ? Porque chove menos e faz menos calor do que no Verão.

Então,aí vai:

Alguns chaverim de algumas kvutzot, uns 12-14, resolveram se juntar e sair para um Tiul Leili (Passeio Noturno) pelos arredores; decidiu-se que seria no subúrbio, onde morava uma senhora do ishuv, conhecida de alguns deles, que tinha uma área com árvores adjacente à casa dela. Ela tinha concordado que se acampasse lá por uma noite.

Marcou-se a data, e foram feitos os preparativos, juntou-se bastante jornais para forrar o chão das barraquinhas, isolando do frio.

No dia marcado, os chaverim compareceram na sede do Snif, na Rua Joaquim Palhares 595 (o Snif funcionou lá desde 1951 até 1955). Cada um trouxe sua comida, incluindo os clássicos ovos duros não descascados, e foram amontoando os mantimentos, as mochilas e tudo mais em um canto do salão de entrada do Snif. Era costume, em todos os passeios, juntar toda a comida e depois dividir por igual entre todos.

Na hora marcada partimos para o Tiul Leili; os chaverim iam pegando o que estava amontoado, pegamos condução e depois de umas duas horas chegamos ao local. Já estava anoitecento.

Logo depois de montarmos as barraquinhas, começamos a preparar a janta. Havia bastante comida, inclusive uma quantidade de queijo branco, fresquinho, enrolado em pacotinhos de folha de bananeira.

Era uma delícia, todos gostavam e indagavam – Quem trouxe ?

E de repente, como um relâmpago, todos gritaram quase em uníssono  “É o queijo da Hachshará !! “.

Acontece que algum chaver do Garin veio da Hachshará com uma quantidade de queijo lá produzido para vender no Rio. E como estava no salão do Snif, aparentemente perto dos nossos mantimentos, alguem o pegou inadvertidamente, sem saber que não era nosso.

E agora ? O que fazer ? Não tínhamos como voltar ao Centro e devolver o que restou do queijo.

“Vamos telefonar, ver se achamos o tal chaver, informar a êle do que aconteceu. “

Mas o que ? Telefonar no Rio ? Onde tem telefone ? Para onde ? Para quem? O florista ao lado do Snif?A estas horas da noite? Onde acharemos o chaver?

Não sabíamos o que fazer. No final, passamos o resto do Tiul Leili com aquele sentimento de culpa. Já o queijo não tinha mais aquele gosto, ficou o amargo na boca.

Coisas da vida do Movimento …

Parafraseando aquele versinho saudosista :

” Ah que saudades que eu tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais”, fica assim:

“Ah que saudades que eu tenho, da vida do Movimento, da juventude querida que os anos não trazem mais”.

Poético, né ?

Jerusa (Shmuel Yerushalmi)

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