Nome
Moises
Sobrenome
Fuks
Chaver do Movimento Juvenil
Ichud Habonim
Biografia

       Nasci em Lockacze, Polônia, atualmente Lokachi, Ucrânia, em 1930. Em 1935 emigrei com meus pais para o Brasil e nos radicamos em Curitiba.

       Com 4 anos de idade, falando apenas polonês e ídish e sofrendo de raquitismo ósseo ocasionado por desnutrição em Lokacze, tive que me confrontar e adaptar ao novo mundo para o qual meus pais me trouxeram.

       Aos 6 anos passei a estudar na Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmann onde, além das matérias ditadas pela secretaria de Educação do Paraná, estudávamos outras matérias judaicas com o Prof. Baruch Bariach. Com ele aprofundei o meu conhecimento nas línguas ídish e hebraico, literatura, história judaica e um pouquinho de religião e foi aí que encontrei os meus primeiros amigos.

       Terminados os cursos da escola primária, estudei no Ginásio Paranense até meus 18 anos, quando entrei para a Escola de Engenharia da Universidade Federal do Paraná.

       Como toda pequena coletividade de então que contava menos de 300 famílias, também a minha passou a frequentar o Centro Israelita do Paraná (CIP). A formação judaica, mas não sionista, que recebi de meus pais me acompanhou em toda a minha vida, e me levou a dedicar parte dos meus afazeres à coletividade judaica, ao Centro Israelita, a Escola e o movimento juvenil sionista Dror.

       Em 1956, um grupo de jovens recém saídos das universidades, resolveram criar O Macabeu, um jornal para a Comunidade Israelita de Curitiba, que era inicialmente impresso em mimeógrafo e mais tarde na tipografia. Nos anos de 1960, fui eleito Presidente do CIP, função que eu desempenhei por dois anos, e ao deixá-lo, Anna, minha esposa e eu resolvemos tentar a Aliá.

       Muitos acontecimentos levaram-nos a pensar a viver em Israel. O mais importante para nós foi o Holocausto. No movimento Dror, muitos, e eu entre eles, chegamos a conclusão que para sustar o antissemitismo e a tendência de monarquias, governos europeus e outros de atribuir aos judeus a culpa de seus próprios fracassos, a única solução seria criar um Lar Nacional a este povo sofrido, perseguido, usado como “bode expiatório” e sem possibilidade para se defender. O primeiro passo neste sentido tinha sido dado em 1948, quando Ben Gurion declarou a criação do Estado de Israel.

       A juventude judaica do mundo inteiro e também os jovens da América do Sul, empolgados, adotaram o lema: Não fale, aja. Milhares de jovens abandonaram seus estudos e depois de uma hachshará de seis meses em Jundiaí emigravam para Israel.

       Eu sonhava poder juntar-me àqueles jovens decididos, porém, como não tinha ainda completado 18 anos, necessitava autorização de meus pais.  Fui pedir a eles a permissão de se juntar a outros jovens decididos a construir o novo lar judaico em Israel e meu pai me contestou: "enquanto voce vive em minha casa e eu te sustento, eu peço que voce atenda minhas exigências. Voce primeiro termine a universidade e quando voce me trouxer o diploma voce poderá fazer de tua vida o que te parecer mais apropriado.”

       Terminei a faculdade de engenharia e consegui emprego na filial paranaense da White Martins, de gazes industriais, hospitalares e equipamentos de soldas industriais, da qual me tornei gerente.  Em 1958, a Anna Blinder e eu casamos. A Anna era amiga de minha irmã, foi minha chanichá (educanda) no Dror e, quando foi fundado O Macabeu ela e sua amiga Martha se tornaram parte da diretoria e redatoras de uma das seções da revista. Nossas reuniões eram noturnas que se prolongavam por horas tardias, entendemos, o Maurício Schulmann e eu que deveríamos acompanhá-las até suas casas que eram geminadas. O Mauricio casou com a Martha e eu com a Anna.

       Deixei meu emprego na White Martins e, com um amigo judeu da coletividade, formamos uma sociedade de engenharia voltada para a construção civil. A Anna formou-se em odontologia e se dedicou a odontopediatria, seja ministrando aulas na faculdade ou trabalhando na clínica odontológica para crianças. Após 7 anos de casados, a Anna recebeu uma bolsa da CAPES e viajou para os EUA para se especializar durante um ano. Eu permaneci em Curitiba pois a firma de engenharia da qual era sócio, tinha compromissos de entrega dos projetos em construção.

       Passado um ano viajei para os EUA para encontrar minha companheira que tinha concluído seu estágio. Antes de voltar ao Brasil a convidei para passear por alguns países da Europa e incluímos uma visita a Israel. Queríamos saber se Israel nos permitiria viver uma vida similar a que tínhamos em Curitiba. A resposta foi negativa e retornamos à Curitiba, desiludidos e afastamos a ideia de fazer Aliá.

       As nossas vidas seguiram seus rumos, a Anna se desligou da Faculdade e criou uma clínica odontopediatrica que se tornou a mais procurada e famosa de Curitiba. Também eu colhia meus frutos dos resultados da nossa empresa de construção e representações industriais, sem jamais deixar de contribuir com meus interesses e atividades à coletividade, ao CIP e ao O Macabeu. Nossos sonhos de fazer Aliá se apagaram de nossa memória.

       Em 1969 a Agência Judaica de Israel organizou em vários paises e também no Brasil, excursões relativamente baratas denominadas “Tour Vealeh”, cuja finalidade era trazer judeus profissionalizados para conhecer Israel e verificar possibilidades de se associar à vida deste novo país. Anna e eu resolvemos participar sem qualquer plano pré-estabelecido. Enquanto eu ouvia as conferências que dissertavam sobre as vantagens que Israel oferecia, Anna decidiu trocar as palestras por uma visita ao Hospital Hadassah e à faculdade de odontologia da Universidade Hebraica em Jerusalém bem como visitar os amigos odontopediatras que ela conheceu e com eles estudou em Birmingham, Albama. E aconteceu o inesperado pois Anna foi convidada para se juntar aos seus colegas e ao corpo docente da cadeira de odontologia. Acredito que este foi o momento que selou o nosso destino e o nosso futuro.

       Mais do que sua clínica odontopediatrica bem sucedida de Curitiba, Anna sonhava se juntar ao corpo docente de uma faculdade, acima de tudo, numa universidade em Israel. O sionismo que ela nutriu de seu pai, por quem sentia muito amor e respeito, lhe fazia entender que seu pai seria o homem mais orgulhoso da terra se visse sua filha professora de uma universidade em Israel.

       Quanto a mim, os pensamentos seguiam noutra direção. Com quase 40 anos de idade, fazer aliá era um sonho quase impossível de realizar. Não temia vender minha firma e as propriedades arduamente conseguidas através do meu trabalho. Eu me sentia capaz de recomeçar a vida em outro país, porém meu problema eram meus pais, ainda que financeiramente independentes, ambos eram doentes e eu era o único filho que se dedicava a eles. Minha irmã, doente, vivia com a família em Ribeirão Preto, distante de Curitiba. O preço mais caro e crucial que eu teria a pagar seria a tortura de carregar em minha consciência o fato de saber que meus pais velhos, doentes e sós em sua velhice, não teriam alguém para socorrer em momentos difíceis.

       Por outro lado, minha consciência me acusava de deslealdade comigo mesmo. Eu, que continuava acreditando na necessidade de construir um lar nacional para o povo judeu e que havia enviado muitos discípulos para Israel para ajudar a construir este sonho, permanecia no Brasil sem ser parte daqueles que acreditaram nos meus ensinamentos.

       Em 1971, tomamos, a Anna e eu, a decisão de fazer uma experiência de um ano em Israel para verificar se seremos capazes de nos ambientar e viver definitivamente neste país. Foi um ano extremamente difícil para nós. Escolhemos morar em Jerusalém devido a que lá se encontrava a faculdade de odontologia da Universidade Hebraica, onde Anna iria se juntar aos colegas que a convidaram.

       Sem saber a língua, sem amigos numa cidade de clãs e famílias numerosas que se encontravam aos sábados e feriados, nós não tínhamos para onde ir. Eu havia comprado um carro e nos dias livres fugíamos de Jerusalém para passear pela Terra Prometida o que, sem dúvida nos ajudou no futuro.

       Com o contrato que havia assinado no Brasil com o sheliach da sochnut (Agência Judaica) Sr. José Tenenbaum, comecei a trabalhar na prefeitura de Jerusalem, na época do lendário prefeito Teddy Kolek, como engenheiro de inspeção, para inspecionar obras e apontar as irregularidades que os empreiteiros costumavam fazer. Para me ajudar, tinha um auxiliar que além do hebraico, sabia apenas árabe e francês. Eu não entendia árabe nem francês e para nos comunicar era obrigado a falar hebraico. Embora eu ia diária e assíduamente estudar hebraico no ulpan (escola para imigrantes) foi com o ajudante de origem iraquiana que realmente aprendi língua do país. Foram três anos muito valiosos pois, mais que a língua, aprendi as diferenças que haviam na construção civil em Curitiba vis-à-vis de Israel. Na minha nova atividade e numa terra estranha, mesmo com a dificuldade da língua, fiz amigos no meu departamento e o meu superior me ajudou a encontrar e comprar um apartamento em um projeto que estava sendo construído na Guiva ha tzorfatit, ao lado do Monte Scopus. A compra deste apartamento justificava o sonho de ter um lar em Jerusalém caso decidíssemos fazer Aliá. A vida em Jerusalém continuava difícil, pois apesar dos amigos que Anna e eu fizemos onde trabalhávamos, nossa vida social era quase inexistente.

       Nos dez primeiros meses em Jerusalém, queríamos desistir do sonho sionista e voltar para Curitiba. Foi então que em uma festa de Purim promovido pela Faculdade de Odontologia, estávamos, quando a Anna e eu estávamos dançando, aproximou-se o Prof. Arieh Shtaier, da mesma faculdade e nos disse: "Ouvi falar que voces estão planejando voltar ao Brasil e para não mais retornar. Vejam que má sorte tem Israel, recebemos milhares de imigrantes que o país tem que zelar pela sua saúde, residência, emprego e quando chega um casal que não necessita de qualquer ajuda e pode contribuir tanto para este país, eles decidem ir embora”.

       Naquela noite, Anna e eu não conseguimos conciliar o sono. A observação do Prof. Shtaier mexeu com nossas consciências e os ideais que nutríamos vieram à tona. Os dias que seguiram antes de retornarmos ao Brasil mudou o rumo de nossa decisão. Resolvemos viajar à Curitiba, nos desfazer de nossas propriedades - escritórios, clínica -, e retornar à Israel para tentar criar uma nova vida neste país. Com lágrimas nos olhos e consciência pesada, nos despedimos dos pais, família e amigos e retornamos à Israel.

       Em Jerusalém a Anna reassumiu seu trabalho na faculdade de odontologia e eu na  Prefeitura. Fui então convidado para prestar serviço no departamento do Procurador da Prefeitura (Mevaker Hairiah), como engenheiro de inspeção.

       Três meses após a nossa chegada, estourou a Guerra de Yom Kipur, que foi para nós uma expêriencia que ficou gravada profundamente em nossas mentes. Minha participação na guerra foi insignificante.  Como oleh chadash (imigrante novo) e residente temporário o país me impedia de participar na guerra. Com o final da guerra, Israel, pouco a pouco retornou a normalidade. Trabalhei por quatro anos na inspeção do Procurador da Prefeitura e dois anos como Diretor Técnico no Departamento de Águas e Esgotos da Prefeitura de Jerusalém. Porém, meu desejo era voltar a ser engenheiro de construção civil e deixar de ser empregado. Neste interim, participei de uma concorrência promovida pelo governo israelense na venda de oito terrenos em frente ao Monte Herzl. Fui um dos vencedores e recebi um dos terrenos com pouco mais de 1000 m2 com a condição de construir duas casas térreas no mesmo terreno. Julio Pechman, nosso amigo de longa data de Curitiba, arquiteto e projetista de interiores, veio do Brasil à Jerusalém para projetar nossa futura moradia e a do eventual vizinho. Em 1982 nos transladamos para esta casa que além de seu conforto se encontra a dez minutos de distância da faculdade de odontologia, permitindo rápido acesso da Anna ao seu trabalho.

       A construção de minha casa tornou possível realizar meu sonho de voltar a ter uma firma construtora e em 1986 constituí a firma M. Fuks Isracur (abreviatura de Israel-Curitiba). Com ela construímos residências, jardim de infância, uma escola árabe, um ginásio completo além de várias reformas. Embora de padrão médio, a firma foi considerada pela Prefeitura de Jerusalém como exemplo de capacidade profissional, correção e excelente qualidade de construção. No ano 2000, meu sócio adoeceu, se afastou e eu assumi a responsabilidade da empresa. Em 2002, devido ao estado de minha pressão arterial, meu médico me proibiu prosseguir nesta atividade. Ainda assim, prossegui nela por mais alguns anos.

        Hoje, após mais de 46 anos vivendo em Israel, ao recordar o roteiro que eu segui em minha longa vida, apesar dos gritos da consciência pela mágoa causada a meus pais, família e amigos, creio que agi de acordo com meus ideais. Deixei o conforto do Brasil e contribuí, com minhas possibilidades para reconstruir o Lar Nacional do povo judeu, que restituiu meu auto respeito, segurança e orgulho.

Jerusalém, 18 de julho de 2020

 

Ativo em:
Curitiba
Ano de aliá
1973
Títulos e Distinções
2003-Rav Kablan do ano, outorgado pelo presidente da Associação de Empreiteiros de Israel
2004 - Empreiteiro Veterano, outorgado pela Organização de empreiteiros e construtores de Jerusalem
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Brasileiros Oriundos de Movimentos Juvenis que depois da Aliá contribuiram à Sociedade Israelense em seu campo de atividade
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