As galinhas, o farelinho e as pombas

Em Dezembro de 1955, Sara e eu entramos na Hachshará, 3 semanas depois do nosso casamento.

O primeiro grupo do sexto Garin já tinha feito Aliá em Outubro, e a Aliá do segundo grupo, incluindo nós 2, estava programada para Outubro próximo.

Como eu era, na época, a única pessoa com Carta de Habilitação para dirigir, fui logo encumbido de dirigir o caminhão, um velho Chevrolet. Uma das tarefas era ir até Jundiaí, uns 16 kilômetros de estrada, a maior parte de terra batida, e lá, no Armazem Filipozzi, fazer as compras; o Filipozzi era um Armazem típico de cidadezinhas do interior, que vendia implementos agrícolas, ferramentas, utensílios domésticos, vários tipos de mantimentos enlatados, material de construção, tintas, etc. Ele tinha uma plataforma elevada, a nível do caminhão, para facilitar o carregamento das mercadorias. O pagamento era feito à vista, em dinheiro contante.

Um dos produtos que estavam sempre na lista das compras era o – farelinho . O farelinho era uma espécie de milho seco triturado a fino, que algum orientador agrícola da Hachashará tinha decidido ser este o melhor alimento para as galinhas poedeiras, que constituiam o galinheiro da Hachashará.

O galinheiro já existia como um ramo de trabalho, e havia sido recentemente construido um novo, no qual eu me recordo ter pintado uma parte exterior com tinta verde, me lambuzando todo. Aparentemente o operário que o construiu deve ter sido de ascendência muçulmana, tendo visto o que ele escreveu com tinta numa das paredes, e eu me recordo até hoje: “Granja Muidiryet El Tahir”. Não sei o significado, talvez era o nome dele.

O tal farelinho era uma raridade, vendido em pequenas rações; o vendedor sempre me dizia que “ouro em pó” ele poderia me vender à vontade, mas farelinho não. Então, comprava o que podia.
As rações eram armazenadas no curral onde tinhamos uma ou 2 vacas leiteiras, e lá chegavam voando pombas em quantidades e devoravam o farelinho, causando aquele prejuizo.

Resolvemos então acabar com o problema, montamos armadilhas e conseguimos capturar bastante delas. E neste momento surgiu a questão: o que fazer com as pombas? Exterminá-las ou comê-las ?

Aqui é o momento de explicar o assunto da alimentação na Hachshará: pouca parte da comida era de produção própria, a maior parte verduras, legumes, ovos e leite. Outros mantimentos eram comprados (pão, carne, grãos, etc.). A Hachshará recebia, no início de cada mês, uma verba mensal de alguma fonte (o Vaad Lemaan Hachshará ?); mas esta verba acabava bem antes do fim do mês, de modo que era dificil manter o estômago cheio.

Voltando ao caso das pombas, houve uma Assefá Clalit (Assembléia Geral), uma grande discussão ideológica que levou horas, e no final quem quiz comeu-as, e quem não, simplesmente ficou zangado.

Mas a questão das pombas e o farelinho foi resolvida de uma vez para sempre.

Shmuel Yerushalmi (Jerusa)

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2 comentários em “As galinhas, o farelinho e as pombas”

    • Quando eu trabalhava no Instituto Weizmann, tínhamos contratado um especialista em acústica, belga, chamado Claude Tahir. Não sei se ele era descendente de muçulmanos, mas o sobrenome Tahir é o mesmo do que, aparentemente, foi o construtor do galinheiro.

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