A ROLHA DA CACHAÇA

Início de 1953, verão, Machané de Maapilim na Fazenda Palacete, Petrópolis, Rio.

Pelo programa, organizou-se uma saida para acampamento noturno no Sìtio São Jerônimo. Este sítio era uma fazendola, situada à beira da estrada Petrópolis – Mosela – Fazenda Inglesa. A estrada passava ao lado da colina onde era a Machané, e para chegar ao sítio era uma andada de uns 2-3 kilômetros (descida na ida, subida íngreme na volta).

Os donos do sítio quase que não o visitavam, e nos era permitido fazermos lá nossas atividades.
Quem ler este post , principalmente os que participaram daquelas Machanot, não vão acreditar, mas o local ainda existe, e é uma pousada para veraneio.

Um pouco mais para frente, na mesma estrada, estava a “Fazenda do Fang”, um outro sítio onde o Hashomer Hatzair do Rio fez uma ou duas Machanot na mesma época.

Os chanichim carregavam nas costas as lonas e os mastros das barraquinhas destinadas para alojar 2-3, panelas e mantimentos; a finalidade era erguer um acampamento, passar a noite nas barracas, e no dia seguinte ter atividades esportivas, banho de riacho (quem se lembra do Rala-rala ? – vejam fotos abaixo que achei na Internet), e palestras educativas.

Incidentalmente, as barracas e outros equipamentos tinham sido adquiridos pelo Zigue Friezel como excedentes do Exército; lembro-me bem disso porque fui eu quem o levou à Vila Militar no carro do meu pai.

O acampamento decorreu muito bem, mas verão brasileiro é como verão brasileiro, e no meio do segundo dia caiu aquela chuvarada. Todos fugiram para a casa dos donos do sítio, que estava fechada, e lá se refugiaram na cobertura da varanda. Pelo programa, lá estava o Nunho (Nachman Falbel), que iria dar uma palestra-seminário ideológico. Todos estavam enxarcados e tiritavam de frio. Algum entendido disse que precisaria ser dado a todos uma mistura de cachaça com mel, para evitar de se resfriarem.

Mas, não tinha nem cachaça nem mel. Então fui incumbido, como integrante da parte técnica da Machané, de ir até o armazem em Mosela (uns 3 kilômetros em cada direção), e lá comprar algumas garrafas. Consegui que o zelador do sítio me emprestasse um cavalo, que, se andasse de marcha-ré iria mais rápido do que para frente. Mas mesmo assim fui apanhando chuva, e voltei o mais rápido possível, com a cachaça e o mel.

O Nunho já estava no meio de sua palestra, com todos prestando muita atenção; então comecei eu mesmo a preparar aquela mágica poção de chachaça-com-mel que livraria a todos de um resfriado. Peguei aquelas canecas metálicas que os chaverim carregavam na cintura, como bons escoteiros. Em cada caneca eu despejava a cachaça e ia adicionando o mel aos poucos, sempre mexendo para dissolver. Em certo ponto, eu provava a mistura, e passava a caneca para os chaverim.

Aos poucos, de tanto provar as misturas, eu já não sabia onde estava, talvez nas nuvens, talvez me volatilizando.

Os chaverim estavam todos sentados ao longo da varanda, eu atrás deles, o Nunho no outro extremo, de frente a todos. Não sei o que me deu, de tão tonto que estava, quando peguei a rolha de uma das garrafas e a atirei para frente; ela voou por sobre os chanichim e atingiu o Nunho justo na ponta do nariz !!!

Uma pontaria como esta nunca me voltou …

Jerusa (Shmuel Yerushalmi)

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